Bolsa de valores: onde investir em ano de eleição?

É de conhecimento público que os anos eleitorais são acompanhados por extrema euforia, ruídos em todos os lugares, oscilações na bolsa a cada nova pesquisa divulgada e grande volatilidade no mercado.

O que muitas pessoas esquecem é que seus investimentos devem ser focados no longo prazo e que oportunidades para comprar ativos descontados, em razão de um medo dos investidores, podem surgir com essas ondas de incerteza.

O comportamento do mercado

Um exemplo recente de como o mercado financeiro reage de maneira essencialmente irracional em períodos eleitorais foi a eleição americana em 2020. Durante o período, os investidores respondiam de maneira negativa quando era divulgada uma pesquisa em que o candidato (e hoje atual presidente) Joe Biden aparecia como favorito. Para eles, era certo que sua vitória resultaria em um ano difícil para o mercado em 2021.

Artigo publicado no dia 8 de julho de 2020, seção B, primeira página da edição do The New York Times com a manchete: “Investidores perguntam: E se Biden se tornar presidente?”

No entanto, para a surpresa da maior parte das pessoas, o S&P 500, principal índice do mercado americano, apresentou o melhor resultado de sua história para os 365 dias pós-eleição. Isso nada tem a ver com a vitória de Biden ou derrota de Donald Trump, mas sim demonstra que é impossível prever o futuro, especialmente nesses casos.

Porcentagens referentes ao preço de retorno do índice ameriano S&P um ano após o dia de eleição do presidente nomeado, 1928 – 2021. Fonte: Factset, 11/02/2021.

Analisando o gráfico acima, percebe-se que a performance se dispersou de -33% a +38%, sendo bem divididos entre anos de quedas e subidas. Logo, não houve ligação clara entre a performance do índice e o fato de ser um ano eleitoral. Nas eleições brasileiras, a conclusão não é diferente:

Ibovespa performance em anos de eleição
Ibovespa performance em ano de eleição

Mesmo sabendo que, no caso do Brasil, a volatilidade não está presente apenas em período eleitoral (pelo contrário, ela é aliada dos investidores locais na maior parte do tempo), não quer dizer que a escolha do principal líder político do país pouco impactará os mercados.

Os impactos da incerteza do ano eleitoral

Inúmeras vezes, os movimentos políticos antecedem quedas ou aumentos da expectativa dos juros futuros no mercado de renda fixa, desvalorização da nossa moeda frente ao dólar ou precificação de ativos da bolsa de valores. Isso ocorre pelo fato de ser justamente no campo político onde as regras do jogo são definidas, como regulação de setores da economia, leis que regem o mundo dos investimentos, alteração da perspectiva de reformas econômicas etc. Tudo isso impacta pessoas, empresas e o mundo dos investimentos.

Se a discussão sobre a PEC dos Precatórios ano passado já foi capaz de trazer inúmeras incertezas para o país, causando a desvalorização do real, aumento da expectativa de juros futuros e queda da bolsa, imagine quando tratamos de eleições. A previsibilidade, palavra apreciada por tantos gestores, analistas e investidores da Faria Lima, torna-se menor.

A falta de previsibilidade é precificada nos ativos domésticos, visto seu poder de impactar diretamente a percepção de risco de agentes de mercado. Essa precificação se dá pelo movimento de investidores tentando se proteger do desconhecido, muitas vezes através de um desconto no preço dos produtos que estão comprando.

Como é possível de se observar no gráfico acima, a correlação entre os dois indicadores é inversamente proporcional, ou seja, quando um sobe, o outro desce. Quando o índice de incerteza calculado pela FGV está alto, o IBC-Br (indicador que se aproxima do PIB mensal) está baixo, mostrando que nossa economia tende a sofrer em momentos de maior incerteza, como na crise fiscal de 2014-2015 e no início da pandemia do Covid-19.

Reforçando: quanto maior a incerteza, menor o crescimento da economia. 

O que fazer com os seus investimentos?

Após apresentar todos esses dados e demonstrar o comportamento do mercado nos anos de eleição, a pergunta que não quer calar: o que deve ser feito com seus investimentos?

Bom, para o desapontamento dos que esperavam uma estratégia mágica ou uma recomendação ímpar, a resposta é: não faça nada muito diferente do que você faria em um ano não eleitoral.

É preferível a manutenção de uma carteira diversificada, ajustada ao perfil e risco do investidor, do que a tentativa de acertar teses de investimentos baseadas em possíveis resultados nas urnas.

Não há dúvidas de que teremos uma campanha polarizada e oscilações poderão ser sentidas a cada nova pesquisa de intenção de voto ou debate. Também é possível que certas oportunidades de compra em momentos de mercado irracional apareçam e pode ser que você consiga aproveitá-las. No entanto, a diversificação segue sendo sua melhor aliada, com ou sem eleições.

Um comentário

  1. Muito interessante! Muitos pregam pessimismo nessas épocas, mas a verdade é que o mercado é quase sempre imprevisível, e não há uma correlação da performance do mercado com o fato de ser um ano de eleição ou não. Na verdade a estatística que temos é: normalmente anos de eleição são mais voláteis. Por isso gosto de usar isso ao meu favor, investindo periodicamente, e me mantendo comprado em ativos onde a expectativa de retorno é positiva no longo prazo (nesse caso ações).
    Parabéns pelo artigo!

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